Quero aplicar a miña ciencia á lingua para pintar a face do noso maior ben colectivo: o galego







xoves 07 xuño 2012

Trombose

por Iolanda Mato, en Galicia Confidencial:

Vou-vos contar um caso que me aconteceu o ano passado. O conto até seria engraçado se não fosse polo drama que carrega. O drama da protagonista é o drama da nossa terra.

Polas desventuras do trabalho assalariado acabei por morar perto do terrunho natal da casta dos Camões, no Vale Minhor. Boa parte da faixa litoral desta comarca é hoje couto privado para a folga estival das elites espanholas e raramente se ouve o verbo do grande Camões, como diz o nosso “Hino”.
É claro que há exceções. Topei com uma delas na dona do meu caseiro. O casal tinha por volta de 70 anos, e trocaram a colheita de patacas das arenosas leiras de beira-mar pola rigorosa recoleção de alugueres das dezenas de prédios que brotaram nos últimos anos.
Esta nova espécie vegetal nutrida com ferro e formigão deixa a terra erma durante a maior parte do ano e trouxe consigo a sua própria espécie invasora. Mas essa é outra história.
O caso é que mesmo as pessoas mais idosas deram em falar a língua dessas elites estivais, modelo de progresso e superioridade primeiro, fieis consumidores do fruto do pé de formigão depois. Por um ou outro motivo, a língua dos visitantes estivais acabou por ficar. Mas eu queria-vos falar daquela exceção.
Mesmo eu sendo galego-falante desde criança, um dia o meu caseiro quis-me dar conta da peculiar situação da sua dona, pois sem dúvida considerava anômalo ou descortês que ela falasse comigo na nossa língua comum. Ou talvez fosse esta a triste explicação que precisava dar a todos os seus inquilinos.
A senhora levava várias décadas falando castelhano, com muito orgulho e devoção polos visitantes estivais. No entanto, faz um par de anos sofrera uma trombose. Afortunadamente, as consequências foram relativamente “leves”. O mais notório foi o “formateado” da seção do cérebro que terma das línguas não maternas.
De um dia para outro sumiu por completo a fala de Góngora e ficou apenas o verbo de Camões, fielmente preservado como fóssil de algumas décadas atrás, quando o Vale Minhor era uma terra quase tão fértil como as águas hoje relegadas principalmente ao remolho humano.
Desde aquela ando dando-lhe voltas ao acidente cerebral coletivo que parece precisar este País para sair da decrepitude na que o pulgão importado nos tem imergido.

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